SKORPIUS

 

I

Às vezes as noites parecem solitárias e entediadas,

então, de nossas entranhas, saem como fogo,

o desejo, incontido, de paixões irrealizadas.

E foi numa dessas noites que eu, decidido,

armei-me das armas que me são próprias e, também,

de um pouco daquele afeto,

que deixara desperdiçado, em tantas passadas camas.

Lancei-me aos campos, ou melhor, lancei-me à noite,

pronto a fazer proveito, daquela que me aprouvesse.

Pronto a atacar, coloquei-me a observar,

quanta gente tresnoitada, quanta gente tresloucada,

desajustados, quase todos, um pouco assim como eu;

Alguns se sentavam e olhavam, olhavam e desejavam,

a loura que passava, a morena que dançava,

se levantavam, se chegavam e as chamavam,

deixando transparecer, lascivos, a vontade,

de amar, como há muito não amavam.

 

II

 

Os minutos se passavam e eu, observando,

o jeito das garotas, seu andar e seu falar,

quantos cigarros não acendi, a olhos suplicantes,

que, mais que o fogo, queriam meu dinheiro,

e, quem sabe até, um pouco da minha companhia.

Mas eu, durão, não me interessava,

por que me interessar se, ali, naquele canto, quieta,

olhar perdido, jeito desligado, me encantava,

aquela garota que piscava, azul, verde, vermelha,

ao som da música que tocava, surda,

e ela se chamava, moça, e agora me olhava,

dentro dos meus olhos e procurava,

com suas mãos saber se eu me interessava.

E eu me interessava e até antegozava,

aquele corpo, cheio, macio, acolhedor,

onde, mais tarde, iria brincar de amor.



III

De amor certamente brinquei,

e foi tão grande a brincadeira,

que muito e muito brincamos depois.

Noites e noites, de sorrisos, beijos e esquecimento,

tantas e tantas, que, hoje ainda, me falta a brincadeira,

pois aquela garota que, quieta, tanto me encantava,

era, apenas, uma garota a mais.

Garota Skorpius, como tantas iguais,

estrelas das noites, lindas, musicais,

que por serem noturnas, são como sonhos,

que por serem sonhos, com a noite se vão,

e, como as noites, por serem noites, sempre se vão,

duram, essas moças, o tempo de uma paixão.





Wilson Melo da Silva Filho