OLHEM BEM AS MONTANHAS



 

Olhai as montanhas,

Olhai as montanhas, mineiros,

Como a Serra do Curral, mutilada,

Vós que não as defendeis, olhai-as enquanto vivem pois,

A golpes de tratores vão sendo assassinadas,

Pela culpa única de suas entranhas de ferro.

Mineiros, por que não percebeis que essa ferrugem que vos empoeira os olhos,

Essa terra, vermelha, é o vosso sangue,

Injustamente derramado, na luta que vos abate.

Olhai as montanhas, mineiros,

Como o Itabirito solitário,

Vós que as desprezais, olhai-as enquanto vivem, pois,

A patadas de caminhões vão sendo massacradas,

Pelo crime hediondo de te recortarem o céu,

Mineiros, fechai os vossos olhos e tentai sentir pela última vez,

Esse imenso abraço verde que vos envolve.

Abraço de amor, abraço feito de terra,

Chorai a imponência que vos formou o caráter.

Olhai as montanhas, mineiros,

Como o Itacolomi dos inconfidentes,

Vós que vos omitis, olhai-as enquanto vivem pois,

Em centenas de vagões, como urnas funerárias,

Vão sendo levados seus pedaços, inermes.





Wilson Melo da Silva Filho