POMBO CORREIO



 

(Construção livre e ampliada sobre " Skyline Pigeon" de Elton John e Bernie Taupin )



Hoje, como tantas e tantas vezes, pensei em ti,

Com minha alma, que chora e geme,

E, como amiga, me pede, o que lhe peço agora:

Por favor, me liberte,

Do meu querer imenso, por você,

Que, antes, imaginei tão doce,

E, hoje, enche meu coração,

Com esse peso de chumbo,

Do amor que não se fez,

Na fraqueza de quem se quis amada,

Sem nada, nas mãos, para ofertar em troca.

Como um pombo correio, de poesias vãs, peço.

Deixe-me voar, uma outra vez,

Para terras, que deixei, tão distantes,

Sobre campos verdes, árvores e montanhas,

Flores e nascentes, riachos e matas,

No caminho de casa, ao longo das estradas do céu.

Este quarto e esta noite, escuros e solitários,

Em que se transformou o meu querer, por você,

Projeta uma sombra, com as formas da tristeza,

E os meus olhos são espelhos, um tanto embaçados,

Do mundo, que deixei, lá fora,

E o meu coração imagina, agora e sempre,

Como os ventos podem mudar as marés,

E como as sombras, que me envolvem, puderam,

Transformar um brilho imenso, neste cinza fechado,

Que me cobre, me sufoca e me torna menor.

Sou, apenas, um pombo correio,

Sonhando com espaços abertos,

A esperar pelo dia,

Em que possa abrir, de novo, minhas asas,

E voar para bem longe, uma outra vez,

Em direção a tantos sonhos,

Que eu deixei, tão distantes, lá para trás,

Lá onde, querer bem se parecia com a felicidade,

Que um dia perdi, ao querer encontrá-la,

Nos cantos, dos encantos, que, eu pensei,

Pudessem ter a forma dos teus braços.

Mas fostes como a neblina, que tudo disfarça,

E se desfaz, quando o Sol, apagado ainda,

Ilumina a alma de quem, por ali, se perdeu, por tanto tempo...

Quero, apenas, acordar, pela manhã,

E sentir, outra vez, o cheiro do mato, do orvalho da noite,

Quero rir e chorar, viver e morrer,

No brilho de cada sonho, pequeno seja, não importa,

Mas que, na luz de cada dia, de verdade, seja todo meu.

Queria, de novo, ouvir aqueles sinos,

Tocando naquelas igrejas, tão distantes,

De tantas pequenas cidades, do interior,

Que conheci, tantas delas, quando, jovem,

Meu coração, inocente ainda, do não querer,

Que, nunca pensei, pudesse me cair como a chuva,

Intensa, enchente que arrasa e leva embora,

O que se constrói, não se protege e dói,

Como este anel, apertado, que me prende a alma,

A você que, hoje sei, não valeu a pena,

Mesmo que esse azul desmaiado, dos olhos teus,

Como olhos de serpente, ainda confundam minha alma.

Por isso, mais que tudo, queria me libertar,

Abrir, esta gaiola, para voar rumo ao Sol,

Que pudesse me iluminar, enfeitar e me matar,

Em cada pedaço de vida que se perdeu, em cada instante,

Em que procurei, sonhei e me enganei,

Em cada pedaço de sonho, de vontade e de amor,

Que este meu coração desperdiçou, no querer imenso,

Em cada esperança de descansar nos braços teus,

Que confundi, me desculpe, com campos verdes,

Sem perceber que um cinza sem cor, frio e feio,

Tornara estéril, o campo perdido de sua alma.

Lá, nenhuma planta poderia se fazer verde,

Nenhuma semente poderia se tornar em flor,

Nada poderia se colorir na primavera, e perfumar,

Uma vida que se perdeu em tantas viagens

Que te levando daqui para lá, de lá pra cá, sem rumo,

Nunca te levaram, por mais que quisestes,

A lugar nenhum, onde a tua vida, desesperançada,

Pudesse se acalmar, por ter achado teu destino,

Onde o que és, pudesse se fazer. E crescer,

No brilho imenso da vida, que não soubestes ter.

Por isso, por favor peço, me liberte,

Do meu querer imenso, por você,

Deixe-me ainda, no que me resta da vida,

Que nunca pude compartilhar no amor,

Como pombo correio, que te levou tantas mensagens vãs,

Voar, uma outra vez, em direção àqueles sonhos,

Que, um dia, tanto tempo faz,

Deixaram no coração, de quem hoje escreve,

A ternura, o afeto e a ilusão, tão imensa,

Que você nunca soube perceber, e ter,

Como a coroa imensa, do reino dos dias teus.





Wilson Melo da Silva Filho