KÁTIA
(Ponte Nova Remix)



Dez anos.

Dez anos nesta noite, desde a última vez que a vi. Eu tenho boa memória, eu me lembro das coisas e eu me lembro como a conheci.

Foi numa daquelas noites em que, desassossegado senti brotar das minhas entranhas, como fogo, o desejo incontido das paixões irrealizadas.

Eu não pensei, simplesmente saí pela noite, entrei aqui, fui até lá, procurei e achei: ali estava ela, radiosa, meio vulgar, deslumbrante, sabendo-se desejada por tantos olhos cobiçosos, tresloucados, levemente tresnoitados, um pouco assim como os meus.

E ela não se importava, mas a mim, no meu querer, importava e tantas fiz que, lá pelas tantas, veio até mim e, depois de alguma conversa, deixou que minhas mãos tocassem as suas e que eu lhe dissesse coisas.

Ali tudo começou. Desejo, farra, aventura, brincadeira.

Mas acabou sendo muito mais.

Alguma coisa nela me comoveu. Não só porisso, com certeza, mas, talvez, por ser filha de algum trapezista, daquele circo de Ponte Nova que, um dia, a deixou pelo caminho.

Isto só depois vim a saber, numa outra noite - sempre à noite, que, para mim, ela sempre foi uma mulher noturna - naquela noite em que, para fazer-me de engraçadinho, prometi-lhe que, dos jardins do Palácio da Liberdade, buscar-lhe-ia uma flor.

Meio tocado por um pouco de uísque e por uma imensa vontade daquela mulher, saí do carro e, firmemente, com a mais absoluta das convicções, dirigi-me ao guarda do Palácio do Governador das Minas Gerais:

​- "Seu guarda, por favor, vou até ali, se me dá licença, apanhar aquela rosa (será que era mesmo uma rosa?) para a moça, ali, no carro."

-"Ô amigo, num me leva a mal não, mas aqui o senhor num entra não. Ocê pode até ter cara de dotô, mas aqui num tem jeito."

​- " Mas, seu guarda, aqui meus documentos, fica com eles, mas entende a minha situação. Eu prometi pra ela, é só um instantinho. Você sabe como são as mulheres. Pô, você é homem também, entende minha situação. Hoje você tá aqui, plantado. Ninguém vai saber, é só um segundinho. Você é atleticano?"

E o guarda era atleticano. Doente. Aí eu inventei que era do Conselho Deliberativo do Atlético, e disse que o Cruzeiro era um time de viados e que eu era muito amigo do Toninho Cerezzo.

-"Seu guarda, só um instante!"

-"Tá certo, mas vai rapidinho, senão fica ruim prá mim. A minha Geralda (era Geralda.) também se derrete com essas frescuras de flor."

Ah, que flor gloriosa! Por alguma razão, guardada no fundo da sua alma, ela se emocionou. Ela chorou. Contou-me de sua vida. Sem que eu perguntasse, explicou-me tantas coisas, até mesmo aquelas que não se precisa explicar. E falou-me dos seus sonhos.

Na verdade não importavam as palavras, mas a força que havia nelas; nos limites do seu saber havia sinceridade, havia querer e havia tanta doçura! E eu me emocionei também. Não havia futuro para nós dois, sabíamos disso, que não passávamos de um encontro casual, mas nasceu, forte, um sentimento, momentâneo que fosse, de infinita solidariedade. Naquela noite, os desejos satisfeitos, as cabeças recostadas, senti que ela se tornara, para mim, num símbolo. Símbolo de um época que foi tão bonita! Os meus trinta anos, minha juventude madura, resumo de toda uma vida!

É noite e eu te celebro, que a mim viestes com a noite,

E, ao lembrar-me de ti, eu mesmo me olho,

E procuro descobrir se ainda sou eu mesmo,

Aquele que, encravado nas montanhas de minha terra,

Escavava minha alma, colhendo flores e deitando sementes,

Que de novo floresciam, recendendo amor.

Mulher de sonhos,

Quantas vezes arei a terra de teu corpo sofregamente,

Quantas vezes plantei, em ti, a semente do amor,

Como se, de ti, dependesse a vida.

Mas tu não eras feita de terra,

Eras de sonho, mulher de sonhos

E eu sonhei contigo, quantas vezes sonhei contigo,

Mesmo que, hoje ainda, não te conheça,

Ou nem mesmo venha saber quem sejas.

Eu venho desde ti, ou vou para ti, não sei,

Sem saber, ao menos, se já te encontrei um dia.

É, dez anos esta noite e, como comemoração, quem sabe, coloquei-me a escrever essas coisas, coisas essas que talvez possam ser um testamento de uma grande saudade, uma poesia de muito amor, ou, quem sabe, simplesmente, uma esperança de novas esperanças.

Eu sei o que deixei para trás, na distância do tempo que se foi; eu não sei o que me espera. Talvez encontre, de novo, mais adiante, um outro abraço que eu também não esqueça. Talvez, quem sabe, até mesmo o definitivo abraço.

Mas, não importa. Eu tive meus momentos de muito enlevo e de muita felicidade. Porisso, Kátia, mesmo passados dez anos e também pela saudade desta noite, muito obrigado. E um beijo.



Wilson Melo da Silva Filho