DESAMOR

 

De dentro de mim, eu mesmo me olho,

Procurando descobrir se ainda sou eu mesmo que,

Encravado nas montanhas da minha terra,

Escavava minha alma, colhia flores, deitava sementes,

Que, de novo, floresciam rescendendo amor,

Amor que viajava em asas de pássaro,

Emplumado, colorido, sonoro,

Amante, não amado, pouco importava.

Que foi feito de mim, que fizeram dentro de mim,

Que fiz eu, eu que queria apenas parar

E escrever uma só poesia que fosse,

Uma canção muito pura, de muito amor.

Olhem-me, eu sou como um rio que,

Corria puro em direção ao mar,

Para ali deitar o que me corria nas entranhas.

Corria-me o sangue da paixão e,

Era o mar, aquela que eu amasse.

Os anos passaram e eu não cresci, só me poluí,

De detritos de desamor, impurezas de traição,

Já não tenho forças nem água para chegar ao mar.

Terra filha da puta, desamante, egoísta,

Terra opressora, perdestes o encanto de ver as estrelas que te enfeitam o céu,

De ouvir, no silêncio, a música que, um dia, existiu em ti

E que falavam coisas que já não se dizem mais.

Terra que me estendia mãos que se fechavam nas minhas

E eu as perfumava com as flores que colhia.

As flores, as estrelas, o perfume, tudo isso não existe mais.

Minhas mão apenas tocam a solidão

E eu continuo me olhando, de dentro de mim mesmo

E me descubro pensando sim, mas escrevendo,

Não-poesias de rancor e desencanto,

Com o peito querendo explodir de amor.