MARIA

 

Parte I



Eu a conheci há tanto tempo. Um bando de anos, sei lá,

Seus olhos eram azuis e ela era minha amiga.

Seus olhos continuam azuis, mas, minha amiga, ela não é mais.

E eu gostei tanto dela.

Naquele tempo ela amava chocolate. E fumava, pasmem vocês.

Estive na Suíça. E trouxe chocolate para ela.

Fui ao botequim. E trouxe cigarros também.

Trabalhávamos perto. No corredor nos encontrávamos

Sua voz era doce, o seu jeito era terno,

Percebi que a queria.

Saímos algumas vezes.

Umas por carona. Outras por causa dela. Todas por ela.

E eu a quis.

Apesar da roupa simples daquele tempo, daquela analista,

Que muito ouvia e, acho, nada falava,

Eu a queria.

E, numa noite, de um setembro, eu a tive.

Iluminada noite, na Barra escura daqueles tempos...

Faz já, tanto tempo, que ela, talvez, nem se lembre,

Mas eu me lembro bem, porque me lembro dela,

E me lembro também que, ela, nunca mais.

Lembro dos queijos e vinhos que vieram depois,

Dos filmes cinco estrelas, do Cinema Pax,

Onde a moça, por alguma razão que não me lembro,

Pediu, ou ganhou, sei lá, uns trinta francos

E da Rosa, da Bette Midler, grande história,

Das idas ao Helsingor

Da festa na casa da sua Tia,

E do "Love of my Life" do Queen,

De todo o papo, altas horas, em minha casa,

Das conversas furadas, das conversas sérias,

Mesmo até daquilo, que nunca concordei,

Embora, ela mesmo, nunca mais.

Mesmo assim foi muito forte,

Tempos vividos em parceria,

Que, em mim, ficaram guardados,

Como a jóia encantada da sua alma.



Parte II



De tudo que eu contei, eu me lembro, mas em vão,

Pois alguma, e muita coisa, mudou,

Quem sabe um cinza germânico,

De dias escuros como o esquecimento,

Envolveram-na em manto opaco,

Esmaecendo o azul daqueles olhos,

Que a luz, já me disseram, só se faz,

Com o brilho daquilo que se vê.

Não sei se hoje, aqueles que a rodeiam,

Têm, ainda, a cor clara daqueles dias,

Que, em nome dela, quase todos se faziam.

Parte III



E eu queria, de novo, aquela Maria,

Pois mesmo que eu tivesse outra igual,

Eu só queria a Maria que se foi.

É que seus olhos eram azuis e ela era minha amiga e foi minha, por um dia.

Hoje, seus olhos continuam azuis,

Mas, se a Maria não é mais a Maria que, naquela noite,  foi minha,

Não é essa, a Maria que se foi.

Saudades





Wilson Melo da Silva Filho