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PONTE NOVA
Por um acaso da vida, Numa noite passageira, João, entediado, Sem ter muito o que fazer, Decidiu-se, heroicamente, Sentar-se num bar e beber. Beber não faz mal algum, Ao contrário, até que faz bem, Desculpa melhor não se tem Prá se ter o que fazer. Num gole a vida vai, Noutro gole a vida vem. E, num desses vai que vem, Veio também um alguém, Que tendo muito o que fazer, Pôs-se logo a beber Na mesma mesa que o João: "Sabe, me chamam Maria, Estou aqui de passagem, Meu pai me deixou na estrada, Que vai até Ponte Nova, Como não sei o caminho, Nem mesmo conheço a cidade, Pra não perder a viagem, Sentei-me, aqui, ao teu lado, Quero ouvir tuas bobagens."
E o João, ensimesmado, Olhar mergulhado no copo, Maravilhou-se pela imagem, De tudo que à mente lhe veio. Ora, se estava ali sentado, Sem ter muito o que fazer Por que não fazer tudo aquilo, Que estava pra acontecer? "Moça, de Ponte Nova não sei, Que, por lá, eu nunca estive, Mas, se igualzinho a ti, Também não sei o caminho, Por que ficarmos aqui?"
Foi então que as mãos se deram E, nos olhos, se olharam, E entenderam que a noite, Começava a acontecer. Entraram no carro do João E, sem saber onde ir, Tomaram a direção Daquilo que havia de vir. Havia um hotel no caminho, Mas, no caminho do hotel, Havia um parque florido, Quem sabe, um pedaço do céu. Foi então que a moça perdida, Lembrou-se de tudo da vida E olhou de lado pro João: "João, me dá uma flor, que sem flor eu não sou nada E nada serei para ti." E o João, meio sem jeito, Desejo ardendo no peito, Tomou-se de um susto danado: "Sou apenas teu criado!" E, descendo do carro Perdeu-se naquele jardim: "Cravos, rosas, que flor enfim, aquela moça safada, sozinha, desperdiçada, haverá de ter de mim?" E sem saber o perfume Que enfeitasse a desgarrada Trouxe um par de margaridas, Pra ver se um jeito dava Naquela moça da vida.
E, pra surpresa do João, Ao ver-se, assim, enfeitada, Sentiu-se, a moça, quase amada. E, num sorriso pro João, Quis abrir-lhe o coração, E falou, e disse coisas, Casos lá de Ponte Nova, Que, por descaso da vida, Nem chegara a conhecer. Ali morava a mãe Mas não morava o pai Que na estrada lhe deixara, E por não saber onde ir, Jogou-se toda na vida Pra conhecer nosso João Pois, do João de cada dia, Como de um naco de pão Era disso que vivia A nossa adorada Maria. E o João, qual bobalhão, Prestando muita atenção No que a Maria dizia, Percebeu, aparvalhado, Toda a dor da solidão. É que o João, tão bem nascido, Ainda não tinha vivido Nenhuma desilusão. Mas, ali, naquela noite, Tão apartado do mundo, Sentiu-se, num instante, sem nada, Só tinha a Maria e a flor. Mas havia ainda o caminho, Além do parque florido, Havia ainda o hotel, Onde sentir o calor Da Maria e sua flor. E, como história encantada, Abriu-se de par em par, Aquela Maria encantada, Fingindo saber como amar. E o nosso João, satisfeito, Com muito orgulho no peito, Arriscou-se a confessar: "Maria, você me encantou, por tudo aquilo que fez Por tudo que me contou, Quero te ver outra vez." Maria, contudo, sabia, O que se passava com o João, Pois o João de cada dia, Sempre e sempre repetia, Tantas promessas em vão: "João, aqui eu não fico, pois sei, eu tenho que ir, te disse, estou de passagem, Mas, por certo, nessa viagem, A flor que deixastes em mim, Plantada, aqui no meu peito, Quem sabe, me ensina o jeito, De descobrir, porfim, O caminho da estrada, Que vai dar em Ponte Nova. Só ali eu vou beber Noutra mesa, com outro João Só ali eu vou saber, Que em tantas noites iguais, A vida que vai e que vem, Só vem e não se vai mais."
E o João, abestalhado, Olhando sem entender, Aquela Maria safada, Falando do seu querer. Por mais que João a quisesse, Maria seguia com a vida E não restava mais nada, Que o João pudesse fazer; Quem sabe, na noite seguinte, De novo, enfastiado, De novo, no bar a beber, De novo, uma nova Maria, Tendo muito o que fazer, Num pedacinho de vida, De novo o fizesse viver.
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