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UM ENGENHEIRO EM CAPÍTULOS


1 - Intróito

Tu, antigo corredor de maratonas, que vais por essa trilha,

Onde tantas vezes correstes antes,

Trazes os pés vermelhos, dessa poeira enferrujada,

Que cobre, também, teu peito e braços.

A tarde que se faz, Piedade, ao longe e ao fundo,

Serra mística, onde tantos se esconderam e tantos pediram a Deus,

Quando foi o tempo dos medos e das aflições.

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2 - Piedade

Não passavas de um jovem então,

Porque nada sabias, nada temias,

Revolução, Redentora, eu te amo meu Brasil?

Naquele tempo, nada daquilo te dizia nada.

E aquela serra apenas te apontava o céu

Onde, observador noturno, telescópio aos olhos,

Te jogavas ao céu, te misturavas às estrelas, que o universo era tua casa,

E te perdias por ali, ilha do presente, rodeado de passado, por todos os teus lados

E aquela Serra, oratório em minério e ferro, tua cama e altar por uma noite.

As estrelas lá no alto, pontos iluminados de cidades lá em baixo,

Ali flutuavas entre o sono e o céu,

Para acordares, enfim, para a vida que te esperava em frente.

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3 - Pela vida

Muito tempo se foi desde então.

Muito mais vida correu, que toda essa distância que corres agora,

Que ao correres, sem que percebas, correm também teus pensamentos,

Num vai e vem descontrolado, que em desencontros se completam,

No ciclo imenso, das lembranças daquilo que vivestes.

Vida igual a tantas vidas, mas uma vida que foi só tua,

Que todas as vidas são únicas e iguais, apenas diferentes,

Como diferentes são, cada um dos dias, desses dias em que vives;

Hoje, já se faz tarde, mas o dia foi azul e verde,

Outra vez, ali pelo Natal, chovia e fazia cinza e frio,

Que no Natal, por aqui, quase nunca se faz frio.

Mas, nesse caminho, o vermelho da poeira sempre se faz,

Mesmo quando, disfarçada em lama e água, te encharca e molha os pés.

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4 - Das Marias

E te lembras de Maria. Qual Maria, se já não sabes de nenhuma delas?

Marias são tantas, cada uma com seu próprio nome.

Marias são tantas e, quase sempre, nem mesmo Maria são.

Mas elas se misturaram em ti. Cada uma do seu jeito, que sem jeito sempre fostes,

Mas tivestes lá teu jeito. Quantas Marias nos teus braços, abraços e versos.

As Marias se foram de ti. Ou, talvez, naquele tempo, não tivestes Maria alguma.

Que não fostes de ninguém, nem mesmo de ti, que sensato um pouco e nunca fostes.

E caminhastes. E correstes. E viajastes de carro e ônibus. Tivestes medo do avião. E mudastes de cidade.

E as Marias em cada canto e em cada ponto, incidentes e encantos de percurso.

As Marias que chegaram e que se foram, te enfeitaram, te machucaram, te cuidaram e que traístes.

Ah Marias! Que pouca vida terias tido, sem teres tido vida, na vida de tuas Marias!

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5 - Da cidade

O medo do avião. E mudastes de cidade. E mudastes de vida. Fostes viver.

Fostes aprender a vida, que pouca vida tivestes, em tua mocidade e casa antiga;

Fostes encontrar a praia de cada dia, que, assim, não a tivestes antes. Uma barraca, uma cadeira, um jornal. O Sol, o mate e o limão!

A mesa. A cadeira. Os colegas de trabalho. As colegas de trabalho. O trabalho.

Uma usina nuclear. O ponto dispensado, o ponto por assinar. O aluguel, a proprietária, o financiamento, o carro.

Copacabana.

Os amigos. Mais as amigas. Os bares e as noites. Prado Júnior, inferninhos e adjacências.

Schopenhauer. Poema Veinte.

As horas? Só tuas. Vinagrete de uísque. Fumaça de cigarro. A solidão dos versos. As noites azuis!

Helena, Helena, Taiguara; Piano e Viola. De Toi, Love of my Life,

As paixões correndo soltas pelo peito. As desilusões, o fogo e o fastio.

Andastes daqui pra lá, de lá pra cá e, aos poucos, aprendestes a observar e a perceber cada coisa e todos.

Aprendestes algo. Aprendestes, mais que tudo, que eras, a cada momento, e sempre, ator e espectador de ti mesmo.

Ah! que imenso canastrão fostes, que grande atuação tivestes,

Em cada instante, de todos os instantes, em que interpretastes tua vida,

Mesmo quando a peça que te tocava, te parecesse, assim, tão pobre

E, por vezes, te incomodastes com o trabalho, a cidade, a mulher e o carro

E pensastes em trocá-los por outro trabalho, outra cidade, outra mulher e outro carro,

Com todo o cuidado, para que não mudasses ou perdesses nada do que tinhas antes,

Que se não o tivesses, de tudo sentirias tanta falta

E foi mais fácil trocar só de carro e ter, sem ter, uma mulher a mais!

(topo)

6 - Das viagens

E tanta falta sentes, de todas aquelas viagens,

Apenas teu carro, o toca-fitas, a solidão benfazeja e a estrada,

O taco punta, o punta taco, o jogo contrário, contagiros e a pressão do óleo,

Não era uma estrada, era uma pista - caminho de todos - mas tua pista, só tua

As imprudências que não cometestes, que teu pé se fez leve, que, chegar, sempre precisavas,

Que só chegando, se poderia partir, que só partindo, de novo se poderia chegar,

Que só entre a partida e a chegada, tinhas o toca-fitas e a solidão tão bendita,

Que na música e na solidão te divertias, que, por ali, todos os teus sonhos se faziam,

Sonhos feitos de mulheres, todas tuas, de vitórias impossíveis, que todos os sonhos do mundo eram teus

E tua vida, fascinante, em teu carro; e tantas outras vidas em tantos outros carros, que por ti passavam,

Embora, tantas vezes, um indicador e um polegar, em círculo, se fizessem em saudação.

E o Sol que te ofuscava, a chuva que te continha, as poças que derrapavam, a viagem que seguia,

A tarde em lusco-fusco, a noite que chegava, os faróis que te alvejavam, a escuridão que te envolvia.

E dormias. Postos de gasolina pelas estradas, vigias e pousadas do teu sono de viajante.

E as madrugadas. A luz, só das estrelas; as montanhas, vultos apenas.

Nada se movia, nada se ouvia. Apenas teu carro, cruzando a Mantiqueira.

Parecia que, mundo, já não se tinha; ou, do mundo, já tinhas partido;

Talvez estivesses em Marte. Marte não, que a luz era muito pouca;

Marte não, que o escuro não se avermelhava. Nem Saturno, que, anéis, por ali não se viam.

Urano, quem sabe; Plutão talvez. Assim também não, que Plutão é muito longe.

Mas a aurora, aos poucos, se fazia, que ainda estavas pela Terra. Na Terra, sim, ali por Barbacena.

E fazia frio. Que lugar frio meu Deus! Mas te recompunhas, que um misto quente e uma Coca te esperavam!

Santo café da manhã! Café?

Isto é poesia? Que versos mais estranhos! É hora de acordar, que tua viagem segue em frente!

E tua viagem termina por hoje. Não por hoje, mas hoje. Hoje mesmo, que chegastes, agora, de BH.

E tua estrada mudou e mudastes também. Tu, o de hoje, já não és aquele que viajava.

A solidão, percebes, é saudade; a música já vem do CD. Quem roubou teu toca fitas?

Células trocadas pelo tempo; teu corpo já é outro. Será que ainda és tu?

Examinas teu corpo: muito diferente. Examinas tua alma e teus sonhos: diferentes, mais ainda.

E percebes que és a soma de tuas lembranças e aquilo que hoje és e assim serás,
amanhã e depois.

(topo)


7 - Do avião

E tens, também, lembranças amargas. As lembranças dos aviões.

Monstrengos tenebrosos, asas enormes e que não batem, lemes entortados,

Objetos inverossímeis, feitos para voar, aterrorizar e cair,

Sarcófagos voadores, onde te encerrastes tantas vezes,

Onde morrestes e ressuscitastes em cada subida e aterrisagem,

Voadores incompetentes, a corcovear por turbulências,

Trocando de lugar os estômagos e os cérebros,

De tantos irresponsáveis, que por ali se arriscavam,

Na esperança doida, e vã, de acelerar o tempo.

E, em cada medo de morte, te lembrastes, do Gasparian que se foi,

Nas asas da TAM, encontrar sua outra vida,

Deixando, em tua mente, a lembrança daquilo que dele ouvistes,

Que se, em instante certo, algo não foi feito, não há mais o que fazer;

E, se algo já foi feito, então, não há mais por que fazê-lo.

(topo)


8 -Da tua mulher

E algo havia, que ainda não tinhas feito, mas era chegado o tempo,

Quando, entre tantos, te encantastes por um rosto de mulher

E já não querias que aquele rosto, como tantos, se fosse pela vida

Que aquele rosto haveria de ser teu, que mais belo não conhecias.

Que aquele rosto, no teu coração, haveria de mudar teu rumo,

Que, sem aquele rosto, tua vida, já não mais se poderia fazer.

E te apaixonastes, e fizestes coisas loucas, que louco estavas de amor

E na tua loucura percebestes que, nesses instantes, tantas vezes, o encanto se faz,

Que só na loucura se percebe, porque louco estás, o brilho, a cor e o cheiro da vida

Da vida que se reparte em duas partes, da vida que se apossa de todas as partes

E, então, és dela, e dela recebes de volta tua vida

E tens uma mulher. Para a alegria e para a tristeza. Até que a morte não vos separe,

E tua casa já é um lar, que um lar é mais que uma casa só, que, em teu lar, com ela te aconchegas

E no teu aconchego sabes, que tu a amas, que, com ela, te tornastes menos rude

E com tua mulher sabes, que tu a queres, pois, ao querê-la, em troca tivestes um filho

Embora, é certo, tantas vezes, tantas broncas,

Imerecidas, e merecidas, quase todas, mas embaladas, agora e sempre, na vastidão

Do amor que vos sai da boca, dos olhos, dos gestos e corações .

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9 - Do teu filho

E aqui estás, escrevendo tudo isso e há tanto o que escrever,

Pois muito fizestes e muito há que se fazer,

Que desesperada e infinitamente, amas teu filho,

Que hoje te beija - "papai sou seu melhor amigo" - e já é um urso selvagem, e já é um trem e se enrosca e adormece em teu pescoço;

Paviozinho curto, imensamente terno e tão pequenino ainda!

Dia das crianças - olha a mamãe! - uma roupinha, um tênis novo. E o brinquedo?

Por teu filho, fez-se rio tua vida e nele desembocastes,

Não és mais rio, portanto; hás de ser margem, contudo; a margem do rio, da vida do teu filho

E haverás de guiá-lo, pelas curvas e desvios do percurso, que o curso das águas há que ter um destino bom

Que, pela vida, tantos outros rios se assoreiam, se perdem, perdem o rumo e não chegam.

Mas não és Deus. Não podes tudo, podes apenas aquilo que tu podes

Hoje, tua vida, é a vida de teu filho, mas tu não és o teu filho

Que a vida dele há de se fazer ao largo da tua,

Mas haverás de fazer que o melhor de tua verdade, seja a tua herança,

E haverás de saber fazê-lo, de forma tão forte, imensa e sincera,

Que a vida de teu filho haverá de se enriquecer muito mais que a tua

E, em troca, farás um único e singelo pedido,

Que ele, como todo e qualquer filho, por favor, sobreviva aos pais!

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10 - Do Teu País


Teu filho, contudo, haverá de crescer, e viver, neste País.

E te pergunto: será este País, amanhã, este mesmo País que hoje conheces,

Se teu País, tu bem o sentes, não é, assim, tão teu?

Se, de ti, e de outros, por razões que não as tuas, levam, tantas vezes, e de tantos, a cidadania, o trabalho e a vontade,

De forma tal que, se muitos, antes, daqui se foram pelo medo,

Hoje se vão, porque lhes falta a esperança,

Que a esperança se desespera, toda e cada vez que se percebe,

Que tua casa, assim, não se fará tua,

Que teu jardim, assim, não saberá te perfumar,

Que de tua horta, assim, não brotarão os teus grãos.

Vejo uma mulher e um cachorro. Abandonados os dois

E não saberia dizer qual o mais velho, qual o mais mal vestido

E é tão triste o abandono da velhice maltrapilha e suja,

um cão por compania que o Estado tem mais do que se ocupar.

Mais adiante cruzo com duas crianças,

Tão abandonados quanto a velha e o seu cachorro,

Que o Estado tem mais do que se ocupar

E, um após o outro, me pedem algum dinheiro,

Olho nos olhos de cada um e vejo,

Um deles vai me matar amanhã

Teu filho, contudo, há de ter melhor sorte,

Que, um dia, ele, e todos, ainda se unirão,

No pensar e no agir, na consciência aprendida,

De que, se teu País, é teu, não se pode tratá-lo, e não se pode vendê-lo,

Como tantas vezes, amaldiçoadamente, se trata, se entrega e se serve da mulher que se diz da vida;

E é como tratam, e se servem, e entregam teu País, tantos, e muitos, daqueles que hoje te governam

E não cuidam do teu País, pensando em ti, que "independência ou morte" é ficção.

Um dia, contudo, teu filho, e tantos outros, se unirão,

No pensar e no agir, na consciência aprendida,

De que, se teu País é teu, há que se tratá-lo, e há que se servi-lo,

Como se trata, e como se serve, a mulher que, abençoadamente, se sabe muito amada.

(topo)

11 - Epílogo

E tu, antigo corredor de maratonas, hoje um tanto ou quanto bissexto

Ainda seguirás por algumas tantas trilhas;

E mesmo que, por ali, a Piedade não mais se veja,

Seguirá, dentro de ti, como serra mística de tuas esperanças,

Por todo e cada recanto, que ainda cortarás,

Pedra, asfalto, terra, chão batido, capim manteiga, riacho, areia, sei lá,

E será manhã, e será tarde e será noite; será sol e será sombra

E será quem te cerca, e será quem ficou do teu sonho, e será tua lembrança.

E será o teu cansaço, e será o que fizestes, e será o que não fizestes e será o que não farás

Tua mão, então, te guiará. E escreverás. Uns tantos versos

Talvez um retrato. Um pedaço de um retrato teu

Um retrato que é teu, mas poderia ser de outro qualquer

Que todos os retratos, como todas as pessoas, são iguais, apenas diferentes

Como diferentes são todos estes versos, iguais a tantos outros, que ora se completam,

E, por se completarem, encerram e cerram tantas e tantas coisas

Coisas que, em teu coração, são fortes e, por serem fortes, por elas, de novo, uma nova vida há de se abrir

E por ser nova, e por ser vida, uma nova trilha há de se fazer

E por ser trilha, outros pés, outros sonhos e outras lembranças hão de se fazer,

Mesmo que, agora e sempre, esses pés, de novo, voltem a ser apenas os teus.

(topo)

Wilson Melo da Silva Filho

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